Bloomberg Línea — A cidade do Rio de Janeiro superou a capital paulista em tráfego de helicópteros, somando aeroportos e helicentros, informa a Flapper, plataforma de fretamento de táxi aéreo e jatos executivos do país.
O avanço é puxado pelo Aeroporto de Jacarepaguá, na zona oeste da capital fluminense, que lidera sobre o tradicional Campo de Marte em pousos e decolagens de helicópteros desde 2013, quando encerrou a liderança histórica do terminal da zona norte paulistana, fundado em 1929 e um dos mais antigos do Brasil.
Somando os três aeroportos do Rio (Jacarepaguá, Santos Dumont e Galeão), a cidade registrou 93.579 pousos e decolagens de asa rotativa em 2025, segundo o DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo).
Já os quatro principais aeroportos paulistas (Campo de Marte, Guarulhos, Congonhas e Campinas) somaram 37.422 operações de helicópteros no mesmo período, menos da metade do total carioca.
A isso se somam entre 24 mil e 30 mil voos anuais desse tipo de aeronave fora dos aeroportos (2.000 a 2.500 por mês), levando o total paulista a algo entre 61 mil e 67 mil operações, ainda distante das 93.579 do Rio.
“Mesmo somando esse volume [movimento nos principais helicentros] ao total de operações dos aeroportos de São Paulo, a cidade fica atrás do Rio de Janeiro”, diz o CEO da Flapper, Paul Malicki, que levantou os dados sobre o movimento nos principais helicentros.
Para ele, a dimensão de Jacarepaguá pode ser até maior na comparação com outras cidades do mundo.
“Com mais de 80 mil operações de helicópteros em 2025, ele se tornou o maior centro de asas rotativas do mundo”, afirma Malicki.
A explicação está no petróleo. Boa parte do movimento de asa rotativa de Jacarepaguá vem do apoio às plataformas instaladas no mar, num vaivém que não para ao longo do dia.
O aeroporto, inaugurado em 1971 e conhecido pelo código SBJR, também atende operações de aviação executiva, táxi aéreo e voos de apoio a atividades econômicas e turísticas da região. São o segmento offshore (em alto-mar) e o helicóptero que respondem pelo posto de liderança.
“Hoje quem é responsável pelo número crescente de operações do aeroporto é o petróleo”, confirma Flávio Pires, CEO da ABAG (Associação Brasileira de Aviação Geral), à Bloomberg Línea.
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Em junho de 2026, Jacarepaguá registrou 6.630 pousos e decolagens de helicópteros, mais do que o triplo do Campo de Marte (2.051), segundo o mais recente relatório do DECEA.
O aeroporto carioca fechou 2025 com 87.815 operações de asa rotativa, alta de 85% em cinco anos, contra 25.481 do paulista. Em março do ano passado, chegou a somar 10.297 pousos e decolagens em um único mês, o maior volume mensal da série.
A distância existe desde 2013, quando Jacarepaguá ultrapassou o Campo de Marte pela primeira vez. Na última vez em que liderou, em 2012, o aeroporto paulistano, identificado pelo código SBMT, somou 103.215 pousos e decolagens de helicópteros, mais que o quádruplo do volume de 2025 (25.481).
Esse recuo se estende por mais de uma década. Parte da queda é atribuída à descentralização do tráfego para outros helipontos da capital paulista, hoje mais numerosos do que eram em 2012.
Os dados referentes a 100 aeródromos do país constam no Relatório Comparativo do CGNA (Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea), órgão ligado ao DECEA, no Comando da Aeronáutica.
“A cada meia hora, uma aeronave decola ou pousa em Jacarepaguá para atender à exploração de petróleo e gás no litoral”, diz Pires.
Para ele, o que houve foi mudança de escala. Os helicópteros que abastecem as plataformas estavam distribuídos por várias bases ao longo da costa, do Espírito Santo a Macaé, passando pelo norte fluminense, como Farol de São Tomé, principal praia de Campos de Goytacazes.
“Os contratos de offshore, as aeronaves que prestam serviço para a Petrobras têm aumentado gradativamente nos últimos cinco anos", afirmou o CEO da ABAG.
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Com o tempo, essas operações se concentraram na capital do Rio, no ritmo em que a produção offshore da bacia fluminense avançou.
“É mudança de patamar mesmo, e vai continuar aumentando à medida que aumenta cada novo contrato, entrando um, dois, três helicópteros a mais para fazer essa operação”, afirma Pires.
Para o responsável pela ABAG, há ainda o aspecto logístico de que a capital abriga a maior parte das residências da força de trabalho da petroleira.
“Os dados do DECEA estão corretos, são confiáveis. A explicação é muito simples e técnica: em Jacarepaguá, o movimento de O&G [Óleo e Gás] é intenso e crescente. Além disso, há os outros voos panorâmicos mais espalhados em outros helipontos, outras áreas dentro do Rio de Janeiro”, detalha o CEO da ABAG.
Como o principal polo da indústria petrolífera nacional, o Rio abriga as sedes administrativas das principais gigantes do setor, concentrando a operação de plataformas sobretudo nas bacias de Santos e Campos, por meio de consórcios com multinacionais como a Shell, TotalEnergies, Equinor, Galp, CNOOC, CNPC. Há ainda operadoras independentes como PRIO (antiga PetroRio) e a Brava Energia, fusão entre a Enauta e a 3R Petroleum.
Quem colhe esse crescimento é a Pax Aeroportos, concessionária dos dois terminais, controlada pelo fundo XP Infra IV, administrado pela XP Asset Management, gestora da XP Inc, que arrematou o Jacarepaguá e o Campo de Marte no leilão de 2022. O contrato de 30 anos, a contar da assinatura da concessão em março de 2023, vence em 2053.
Por trás do fundo estão cerca de cinco mil cotistas pessoas físicas, que se tornaram, na prática, sócios do aeroporto mais movimentado em asas rotativas do Brasil. A Pax já ampliou o terminal de passageiros de Jacarepaguá, que ficou 60% maior.
Jacarepaguá está encravado na zona oeste, a região mais dinâmica do Rio e a de maior potencial de expansão imobiliária. No entorno, a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes concentram uma vida corporativa, comercial e turística de elite.
É ali que ficam os Estúdios Globo, maior canal de TV do país, e o complexo multiuso da Multiplan (MULT3), que reúne o BarraShopping, o New York City Center e o VillageMall, este voltado ao mercado de luxo, além do ParkShopping Jacarepaguá, também da operadora de retail real estate.
O aeroporto também serve aos executivos de escritórios quanto aos turistas que sobrevoam as praias, muitos deles partindo diretamente de heliportos espalhados pela cidade.
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A liderança do aeroporto do Rio é de fluxo, não de frota. São Paulo continua com o maior número de helicópteros baseados, com aeronaves matriculadas e hangaradas na cidade em quantidade que nenhuma outra capital reúne.
Malicki calcula 243 helicópteros baseados em São Paulo, somando heliportos na região metropolitana como os da HBR, Helipark e Helicidade, contra menos de 200 no Rio.
“São Paulo provavelmente ainda é a cidade mais dependente de helicópteros do mundo”, disse o executivo, em vídeo postado na conta de Instagram da Flapper, acrescentando que “é sempre bom compartilhar um pouco dessa responsabilidade com outros centros urbanos”.
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No Rio, a maioria dos voos panorâmicos parte diretamente dos helipontos, com diversas empresas explorando esse nicho diante do fluxo turístico constante da capital fluminense, sobretudo de estrangeiros, que buscam sobrevoos para captura de imagens de atrações icônicas como o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, a Praia de Ipanema e a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Até no período de baixa temporada, fora do calendário do seu tradicional Carnaval, o Rio se tornou uma das cidades mais retratadas no mundo em redes sociais e tem lotado a hotelaria com o apelo de megashows gratuitos nas areias da Praia de Copacabana ou pagos em arenas como a Farmasi ou o palco do festival Rock in Rio, ambos na Barra da Tijuca.
Investimento de R$ 120 milhões
Jacarepaguá tem pista de apenas 900 metros e navegação exclusivamente visual, sem instrumentos. É uma restrição física que limita o porte da asa fixa e deixa o campo livre para o helicóptero, que dispensa pista longa. Ali mantêm base operadoras como Bristow, Líder e Omni Táxi Aéreo, e a vocação, declarada pela própria concessionária, é servir aos voos que abastecem as plataformas da Bacia de Santos.
A Omni, líder no transporte aéreo voltado ao setor de óleo e gás, é controlada pela holding OHI (Omni Helicopters International), de origem portuguesa, dona também da plataforma Revo, que opera a venda de assentos em voos entre helipontos da Faria Lima e aeroporto de Guarulhos, entre outros destinos e origens em São Paulo e Rio.
Em março, o Ministério de Portos e Aeroportos inaugurou as obras da Fase 1B em Jacarepaguá, um investimento de cerca de R$ 120 milhões, preparando o aeroporto para a navegação por instrumentos (IFR). O IFR muda a economia do ativo porque hoje os dois operam por regra visual e fecham pista com tempo ruim.
Houve obras de restauração da pista de pouso e decolagem, a recuperação do pavimento do pátio de aeronaves, a modernização dos sistemas de iluminação e da sinalização vertical, além da implantação de áreas de segurança.
A concessionária Pax Aeroportos estuda transformar os dois terminais em bases para os eVTOL (aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical), em parceria com a operadora de vertiportos UrbanV. Se o projeto avançar, o mesmo aeroporto que hoje vive do petróleo será um dos primeiros a receber a aviação elétrica.
-Texto atualizado às 20h30, de 28/7, para incluir dados da evolução do tráfego dos dois aeroportos e cidades desde 2012






