Bloomberg — A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva abalou a perspectiva de que o Banco Central cortaria a Selic na próxima quarta-feira, e dividiu os economistas entre uma pausa diante do maior risco fiscal e a continuidade da flexibilização já sinalizada pelo Copom.
Oito de 18 economistas mudaram suas projeções e passaram a prever manutenção da Selic em 13,75% na reunião de 4 de novembro, abandonando a estimativa de corte de 0,25 ponto percentual depois da reeleição surpreendente de Lula, segundo pesquisa especial da Bloomberg realizada de 27 a 29 de outubro.
Com as alterações, subiu para dez o número de analistas que esperam estabilidade, contra oito que ainda projetam redução para 13,50%.
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No mercado de juros futuros, a reviravolta foi ainda mais impressionante. A curva de DI praticamente apagou a chance de cortes neste ano. A precificação para a taxa básica no fim do próximo ano, que chegou a bater 12% entre o primeiro e o segundo turno, disparou para 15%. Nas opções de Selic negociadas na B3 também houve inversão das apostas: 66,5 para manutenção contra 32 para redução de 0,25pp, no dia 28 de outubro.
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Para uma parte dos economistas, o Copom deve refletir as medidas anunciadas por Lula durante a campanha eleitoral, vistas como fatores inflacionários e com peso fiscal, como o reajuste do Bolsa Família, a PEC para gratuidade do transporte no fim de semana e aprovação do fim da escala 6x1.
A virada histórica do presidente trouxe ainda a disparada do dólar — com valorização de cerca de 9% na semana — em ambiente que já mostrava balanço de riscos assimétrico para a inflação.
Em contrapartida, outros especialistas avaliam que, no cenário de incerteza, o BC deve seguir com o plano já sinalizado de reduzir a Selic em 0,25 pp, o que não traria impacto relevante de qualquer forma.
“A questão central é a credibilidade fiscal”, diz Andres Abadia, economista-chefe para América Latina da Pantheon Macroeconomics, que projeta manutenção da Selic. “Um compromisso convincente com a contenção de gastos poderia ajudar a estabilizar o real e permitir a retomada da flexibilização monetária.”
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Diego Martins, chefe de pesquisa macroeconômica da Petros, afirma que o modelo do BC deve apresentar uma inflação de 3,3% a 3,4% no horizonte relevante, “suficiente para justificar a pausa no ciclo de calibração”. Hoje, o Copom prevê uma inflação de 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
Ainda segundo a pesquisa realizada pela Bloomberg, treze dos 18 entrevistados elevaram as projeções para a Selic no fim do próximo ano, com aumentos que variam de 25 a 300 pontos-base. Cinco mantiveram as estimativas inalteradas e nenhum reduziu a previsão.
Veja comentários de analistas:
Vinicius Moreira, Mirella Sampaio e Gustavo Ribeiro, economistas do JPMorgan
- A recente depreciação cambial, juntamente com uma possível nova rodada de alta das expectativas de inflação, deve reforçar os argumentos a favor de uma pausa no ciclo de cortes do BC
- Destacam também riscos inflacionários decorrentes de mudanças tributárias e na legislação trabalhista na virada do ano, além dos efeitos relacionados ao El Niño sobre a inflação
Itaú Unibanco, em relatório assinado por Diogo Guillen, economista-chefe
- Banco espera manutenção da Selic em 13,75% e comunicação de escolha unânime de interrupção do ciclo
- Prevê que Copom reforce necessidade de cautela na condução da política monetária e perseverança para cumprir mandato
- Decisão deve refletir a avaliação de piora do cenário base que resulta de um contexto externo adverso e, domesticamente, maiores pressões inflacionárias, que tendem a se traduzir em deterioração adicional das expectativas de inflação; projeta inflação no horizonte relevante de 3,4%
Ales Koutny, responsável por juros internacionais na Vanguard Asset Management
- Espera uma pausa agora nos cortes, em meio às eleições de meio de mandato nos Estados Unidos na véspera da decisão do Copom e à extensão do conflito global sobre o petróleo
- Um ponto de atenção será eventual comentário do BC sobre o comportamento da moeda e como isso potencialmente pode influenciar a inflação
- “Eu acho que seria uma visão de um potencial mais hawkish”
Paulo Capeleti, economista da Schonfeld Strategic Advisors no Brasil
- A deterioração dos ativos brasileiros após a eleição “vai pesar bastante” na decisão do Copom
- A forte reprecificação principalmente nos juros “poderia desancorar ainda mais as expectativas de inflação”
- “O BC deveria pausar o ciclo de cortes por ora, até ter mais clareza de como a política fiscal vai se desenrolar no quarto mandato do presidente Lula”
Alberto Ramos, economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs
- Copom não deve realizar cortes, dado o cenário de inflação bastante desafiador e um balanço de riscos desfavorável para a inflação
- O ano de 2027 será ruim para a inflação — o mercado já está começando a revisar para cima as expectativas inflacionárias para 2027, e isso vai além do impacto das eleições —, e não faz sentido realizar cortes com base em uma projeção para o segundo trimestre de 2028
Isabela Fukase, gestora de renda fixa da Tivio Capital
- Avalia que BC irá cortar o juro em 0,25pp, o que não fará muita diferença em termos de atividade e inflação
- Na comunicação, BC já tinha deixado a porta em aberto para as próximas, já estava dependente dos dados e disse que é um ciclo de calibração; então, pode cortar em 0,25pp e manter a mesma comunicação da anterior, adicionando que o nível de incerteza aumentou
Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter
- BC deve cortar em 0,25 ponto percentual, “mas pausa depois” e ficar com a Selic parada por um bom tempo, “até passar choques e termos mais visibilidade sobre a âncora fiscal”
- No cenário de incerteza, melhor é seguir a comunicação e fazer pausa agora, deixando bem claro que a ausência da âncora fiscal vai dificultar qualquer corte no futuro próximo”
Adauto Lima, economista-chefe da Franklin Templeton Brasil
- “Os limites para o BC são mais altos do que estava parecendo. Pode ser que o BC opte por pausar e, se não pausar, deve incluir na comunicação cautela sobre a sequência de cortes, fazer um corte hawk”
- Cita os choques que podem pressionar a inflação, entre eles o El Niño, a política do regime de trabalho 6x1, a alta dos preços internacionais do petróleo e o câmbio
Andrea Damico, economista-chefe da Buysidebrazil
- Vê manutenção de juros. “Entendemos que há uma incerteza grande em relação ao que vai ser endereçado do ponto de vista fiscal. O BC não vai ter muita alternativa para cortar os juros com uma alta tão expressiva nos modelos dele”
- “No comunicado, o BC pode usar o argumento que há muita volatilidade no cenário e que aumentou a incerteza no cenário doméstico. Vale uma indicação de uma pausa para ganhar uma convicção de próximos movimentos com maior clareza”
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