Bloomberg — Uma melhoria na qualidade do crédito no Brasil nos próximos meses é improvável, de acordo com banqueiros, diante da falta de perspectivas de que os juros historicamente altos do país caiam de forma significativa.
As expectativas são de que a taxa Selic caia em um ritmo mais lento que o esperado no começo do ano, com a pressão nos preços do petróleo por causa da guerra no Irã deixando o Banco Central menos propenso a reduzir os juros. O BC cortou os juros em 0,25 ponto porcentual na semana passada, mas deu poucas pistas sobre quando fará um novo movimento, dadas as dúvidas que permanecem sobre a economia.
A inadimplência de pessoas físicas atingiu um recorde de 5,6% em maio e permaneceu no mesmo patamar em junho, de acordo com dados do BC.
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Os brasileiros estão mais inadimplentes que em 2015 e 2016, anos em que o país enfrentou a maior recessão em décadas, e também mais do que durante a pandemia da Covid-19, quando os juros chegaram ao piso histórico e os bancos postergaram vencimentos para alguns clientes.

Estes números provavelmente não vão melhorar até o final deste ano, e podem piorar em 2027, de acordo com Gustavo Schroden, analista do Citi.
“Temos um excesso de liquidez no sistema com transferências de renda e créditos subsidiados para determinadas categorias,” disse ele em uma entrevista à Bloomberg News. “Isso tem amortecido um problema que poderia ser maior.”
Este é o cenário em que os bancos estão publicando os resultados do segundo trimestre. O Santander Brasil, primeiro a divulgar números entre os maiores bancos do país, mostrou uma queda nos resultados junto com um maior pessimismo de seus executivos.
Uma análise das últimas cinco teleconferências de resultado dos maiores bancos privados do país com o uso de ferramentas de inteligência artificial mostra que o tom utilizado pelos executivos do Santander para descrever o cenário saiu de cautelosamente otimista nas primeiras quatro para pessimista na mais recente. Boa parte da mudança se deve à expectativa de que os juros permaneçam acima do que se esperava inicialmente.
“Eu, pessoalmente, não estou otimista,” disse o vice-presidente financeiro do Santander, Carlos Muñiz, na teleconferência de julho, adicionando que as margens ajustadas pelo risco não devem melhorar neste ano. “Se eu tivesse de colocar uma data, provavelmente estará no começo de 2027, mais que no final de 2026.”
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O Itaú e o Bradesco foram otimistas sobre os esforços de redução de riscos em suas carteiras de crédito, mas mais cautelosos sobre o estado da economia.
A Selic está acima de 10% há mais de quatro anos, e expectativas de que voltasse ao território de um dígito percentual foram frustradas algumas vezes desde então.
As estimativas do começo deste ano de que cortes maiores acontecessem também sofreram um revés à medida que a guerra no Irã e preocupações com as contas públicas brasileiras pioraram as expectativas para a inflação. Estimativas de mercado para os juros no final deste ano saíram de 12,5% em janeiro para cerca de 14% após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), encerrada no dia 5.
O Itaú Unibanco, maior banco do país, teve apenas uma pequena piora nos índices de inadimplência porque sua carteira de crédito, que dá maior peso a clientes de maior renda, o protegeu das pressões macroeconômicas. Mas o Itaú tem evitado uma exposição maior fora deste grupo, e afirma que o Brasil vive um momento de ressaca após anos de alto crescimento no crédito.
“Houve um excesso de crédito dado pelo mercado, um excesso de regulação que abriu o mercado de forma relevante,” disse o presidente do banco, Milton Maluhy. a analistas em uma teleconferência, adicionando que os brasileiros hoje têm cerca de seis cartões de crédito cada um. “A maior parte do crescimento do crédito está nos novos entrantes, e os clientes, com isso, ficaram sobrendividados.”
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Isso cria uma espiral de “morte súbita”, de acordo com Maluhy: quando clientes endividados escolhem pagar o banco com quem têm mais relacionamento, deixam outros para trás. Pagamentos de dívida hoje consomem cerca de um terço da renda mensal dos brasileiros, disse o BC, índice também próximo do recorde.
O endividamento também está por trás da decisão do Bradesco de desacelerar o crescimento em produtos de maior risco, como os cartões de crédito, em especial para clientes de menor renda, que são o principal alvo do banco. “Não é que a gente não esteja trabalhando com rendas menores, trabalhamos com um apetite a risco bem moderado,” o presidente do banco, Marcelo Noronha, disse a jornalistas na semana passada.
O peso do endividamento ofusca os níveis de desemprego próximos das mínimas históricas e um crescimento na renda, o que afeta a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva menos de dois meses antes da eleição de outubro, em que ele buscará um inédito quarto mandato.
Entre as medidas que Lula tomou em um momento em que tenta melhorar seus índices está mais uma edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas, iniciada em maio. No programa, os bancos dão descontos e oferecem melhores condições de pagamento aos clientes para que voltem a pagar, e o governo atua como garantidor em caso de inadimplência.
A primeira edição, entre 2023 e 2024, foi parte da agenda eleitoral de Lula em 2022, quando ele derrotou nas urnas o então presidente Jair Bolsonaro. Mas os patamares de engajamento agora estão abaixo dos previstos por alguns analistas.
“O impacto foi baixo, em linhas gerais,” afirmou Muñiz na teleconferência do Santander, adicionando que o programa não reforçou muito as iniciativas de renegociação que o próprio Santander possui.
No Itaú, a nova rodada reduziu a inadimplência de pessoas físicas no Brasil em 0,02 ponto porcentual, patamar considerado imaterial pelo banco.
O UBS BB estimou, em relatório divulgado na semana passada, que a inadimplência acima de 90 dias para as renegociações do novo Desenrola está em 9,8% em todo o sistema financeiro, de acordo com dados do começo de agosto. Isso se compara a uma taxa de 3% nas renegociações feitas na edição de 2023.
A nova edição inclui ainda um programa de renegociação voltado a clientes adimplentes com vínculos informais de emprego, que busca reduzir os juros que pagam. Mas os bancos privados não mostraram entusiasmo.
“Estamos mais distantes, por crença e por dificuldade de identificar renda pelo grau de informalidade,” afirmou Noronha, do Bradesco.
O Desenrola é focado em brasileiros de menor renda e em dívidas como as do cartão de crédito, que são as que mais preocupam os bancos. Mas não trata de fatores estruturais por trás dos níveis de endividamento, disse Schroden, do Citi.
“O brasileiro tem tomado esse tipo de crédito como um complemento de renda,” disse ele.
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