Bloomberg Línea — Pelo menos três países da América Latina figuram entre as 30 economias com maior dívida pública do mundo, em um contexto em que a diferença entre os países da região se amplia e reflete uma divergência crescente em sua situação fiscal.
Na região, Bolívia, Brasil e Suriname figuram entre as 30 economias com maior dívida pública do mundo em relação ao PIB, de acordo com uma análise de dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), elaborada pelo Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês) e compartilhada com a Bloomberg Línea.
No mundo, os 10 países com maior dívida pública em relação ao PIB são:
- 1. Japão: 204,4%
- 2. Cingapura: 171,9%
- 3. Sudão: 169,1%
- 4. Bahrein: 152,4%
- 5. Itália: 138,4%
- 6. Grécia: 136,9%
- 7. Senegal: 132,3%
- 8. Maldivas: 129,4%
- 9. Estados Unidos: 125,8%
- 10. Ucrânia: 122,6%
A Bolívia apresenta a situação mais delicada da América Latina, pois combina uma dívida que já ultrapassa o tamanho de sua economia, déficits fiscais de dois dígitos, escassez de divisas e reservas extremamente baixas.
O Brasil representa um risco fiscal de médio prazo, mas conta com um mercado financeiro robusto, reservas significativas e uma dívida denominada principalmente em moeda local.
Enquanto isso, o Suriname mantém uma capacidade limitada de absorver novos choques.
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Em 2019, a diferença entre a economia mais endividada e a menos endividada da região era de 63 pontos do PIB, enquanto para 2026 projeta-se que ela alcance 73 pontos, impulsionada pelo aumento da dívida em países como a Bolívia e pelos níveis mais baixos registrados no Peru, de acordo com informações do IIF.
“A região deixou de agir como um bloco”, disse à Bloomberg Línea Jonathan Fortun, economista do IIF. “O que se deteriorou na região não é o nível médio da dívida, mas a dispersão entre os países”.
E, nessa nova realidade, a vulnerabilidade das economias será determinada pelo custo dos juros em relação ao crescimento econômico, pelo saldo primário, pela composição da dívida (moeda, detentores e prazos), a disponibilidade de reservas líquidas para honrar obrigações externas, o acesso aos mercados de financiamento e a credibilidade da política econômica.
“Os investidores analisam principalmente a capacidade real de pagar e refinanciar a dívida”, afirmou à Bloomberg Línea Emanoelle Santos, analista de mercados do aplicativo de investimentos XTB. “Isso inclui os gastos com juros em relação à receita tributária, as necessidades de financiamento para os próximos anos, o prazo médio de vencimento, a proporção denominada em dólares, a participação de credores estrangeiros e a profundidade do mercado local”.
Também é importante a diferença entre o crescimento nominal da economia e o custo efetivo da dívida, juntamente com o saldo primário necessário para estabilizá-la.
Nas economias emergentes, acrescentou Santos, assumem especial relevância as reservas internacionais, a conta corrente, a dependência de matérias-primas e as obrigações potenciais das empresas estatais.
Além disso, “a credibilidade do orçamento, do banco central e das regras fiscais influencia diretamente o prêmio de risco. Um país com dívida elevada, financiamento de longo prazo e em moeda local pode ser considerado menos arriscado do que outro com dívida menor, mas com vencimentos imediatos, poucas reservas e acesso limitado ao mercado”, afirmou Santos.
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Dívida pública na América Latina
A Bolívia apresenta o quadro mais crítico da região, uma vez que sua dívida pública já chega a 102% do PIB, com uma parcela externa de 41,1%, segundo dados do IIF.
O principal desafio da Bolívia não é o tamanho de sua dívida, mas a falta de dólares disponíveis para honrar seus pagamentos.
Essa economia “parece ser a mais vulnerável, pois precisa, ao mesmo tempo, de uma correção fiscal, cambial e externa, com poucas fontes de financiamento disponíveis”, observou Emanoelle Santos, analista de mercados da XTB.
O Brasil registra uma dívida pública equivalente a 96,5% do PIB, a maior da América Latina em termos absolutos, com cerca de US$ 2,1 trilhões em meados de 2026, segundo dados do Banco Central compilados pelo IIF.
No entanto, sua composição se destaca em relação a outros países, uma vez que cerca de 95% da dívida é denominada em reais e está nas mãos de investidores locais, enquanto a dívida externa representa apenas 4,5% do total.
Por isso, o principal desafio não é um problema de solvência externa, mas sim o alto custo do financiamento dessa dívida.
Em 2026, os gastos com juros do governo geral atingem 7,25% do PIB, o maior índice da região, com um déficit primário de 0,45% do PIB.
Com essa combinação, destaca o economista Fortun, o FMI projeta que a dívida suba para 106,5% do PIB em 2031, em “uma deterioração lenta, contínua e visível na curva local, e não uma crise”.
Por sua vez, o Suriname mostra que o nível de endividamento nem sempre reflete o risco fiscal de um país, afirma o economista do IIF.
A dívida pública do Suriname aumentou de 84% do PIB em 2019 para 146,4% em 2020.
De acordo com Fortun, a dívida pública do México está em 62,7% do PIB, considerada “o nível mais confortável entre as grandes economias”, mas seus gastos com juros subiram de 4,41% do PIB em 2019 para 5,98% em 2026, com um superávit primário de 1,6%. “A tensão não está no estoque, mas no custo e nos passivos contingentes”.
Enquanto isso, a Argentina tem uma dívida pública equivalente a 70,4% do PIB projetado para 2026, com um superávit primário de 1,9% do PIB.
A Argentina melhorou rapidamente suas contas públicas e reservas, mas continua dependendo do programa com o FMI e ainda não recuperou um acesso estável ao mercado internacional.









