Bloomberg — A disparada dos preços da energia, a adoção de novas tarifas pelos Estados Unidos e a expansão dos gastos com inteligência artificial voltaram a despertar o temor dos investidores em relação à inflação.
Uma semana que começou com a escalada da violência no Oriente Médio terminou com o petróleo acima de US$ 100 por barril, movimento que elevará os custos ao longo das cadeias globais de suprimentos.
A isso se somaram uma nova ofensiva do presidente Donald Trump por tarifas comerciais e mais evidências de um boom desenfreado de investimentos em tecnologia.
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Esse triplo impacto de fatores com potencial para alimentar os preços, todos atingindo a economia global ao mesmo tempo, surgiu em um momento delicado. Assim que os bancos centrais começavam a enxergar algum alívio nas perspectivas para a inflação, o cenário voltou a piorar.
Diante das decisões previstas para a próxima semana, do Federal Reserve ao Banco da Inglaterra, as autoridades terão de avaliar rapidamente os novos riscos.
Não se espera, no momento, nenhuma mudança imediata nas taxas de juros, mas a preocupação com a inflação ao longo do verão deve persistir nos mercados financeiros.
A disparada dos rendimentos dos títulos públicos globais é apenas um dos sinais do receio entre os investidores de que os preços ao consumidor possam sair de controle. No mercado acionário, o S&P 500 caminha para a segunda queda semanal consecutiva.
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“Os acontecimentos recentes servem como lembrete de que a geopolítica determina a economia, e não o contrário”, afirmou Katharine Neiss, economista-chefe para a Europa da PGIM. “As pressões de choques negativos de oferta sobre a inflação cheia continuarão a sustentar a tendência dos bancos centrais de adotar uma postura mais restritiva.”

‘Ataque maciço’
O novo choque de energia ocorre após a ampliação do conflito no Oriente Médio, que se espalhou do Estreito de Ormuz para o Mar Vermelho. Trump afirmou que agora considera um “ataque maciço” contra o Irã para pressionar o país a negociar um acordo de paz.
Foi nesse contexto que o petróleo bruto ultrapassou US$ 100 por barril na quinta-feira, pela primeira vez em dois meses, enquanto os preços do gás também dispararam.
Os riscos inflacionários, somados às preocupações fiscais, provocam forte queda nos títulos. Entre os movimentos, os rendimentos dos gilts britânicos completaram nesta semana a sequência mais longa de fechamentos diários acima de 5% em quase duas décadas. O rendimento dos Treasuries de 30 anos está pouco abaixo do maior nível desde 2007.
O risco do aumento do custo de vida provocado pelo petróleo e pelo gás está no fato de que seu impacto sobre os consumidores costuma ser quase imediato.
“O choque de energia pode se intensificar ainda mais”, alertou na quinta-feira Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu. “Quanto mais tempo os preços da energia permanecerem elevados, maior será a probabilidade de pressionarem a inflação de forma mais ampla.”
Lagarde reconheceu que alguns colegas questionaram se os juros deveriam ser elevados de imediato, antes de o BCE optar por esperar. As autoridades estão prontas para agir em setembro caso as perspectivas para a inflação não melhorem, segundo pessoas a par do assunto que falaram com a Bloomberg News.
Não se trata apenas do petróleo. O governo Trump apresentou aos investidores, durante a noite, a possibilidade de novas tarifas e prometeu cobrar alíquotas entre 10% e 12,5% sobre importações da maioria dos principais parceiros comerciais. Essa é a maior iniciativa até agora para reconstruir uma barreira tarifária derrubada pela Suprema Corte.
Enquanto isso, continuam surgindo evidências da enorme onda de investimentos em IA. Na quinta-feira, a Alphabet Inc. elevou sua projeção de gastos de capital para até US$ 205 bilhões neste ano.
Outro fator que alimenta parte dos temores é a evidência de poder de precificação entre grandes empresas. No mês passado, a Apple Inc. aumentou os preços de todos os Macs, iPads, dispositivos domésticos e do Vision Pro para compensar o encarecimento dos insumos provocado por uma escassez sem precedentes de chips de memória e armazenamento.
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Kamakshya Trivedi, estrategista-chefe de câmbio e mercados emergentes do Goldman Sachs, disse à Bloomberg Television que está mais preocupado com o choque de energia e os gastos em tecnologia do que com as tarifas.
“Estou muito mais preocupado com o impulso inflacionário que vem do setor de energia neste momento.
Esse é o fator que, na minha avaliação, precisamos acompanhar”, afirmou. “No longo prazo, o elemento mais importante são os gastos de capital com IA, e mudanças de percepção nessa área devem ser um dos principais determinantes da reação entre os diferentes mercados.”
Todas essas novas preocupações com a inflação pesarão nas próximas discussões entre autoridades de política monetária do Grupo dos Sete e de outras economias.
O resultado da reunião do Fed será divulgado na quarta-feira, seguido pelas decisões do Banco da Inglaterra e do Banco do Japão em dias consecutivos.
As autoridades japonesas consideram a possibilidade de acelerar o ritmo de alta dos juros, segundo pessoas a par do assunto disseram no início desta semana.
Dados divulgados na sexta-feira mostraram que o indicador de inflação do país avançou pela primeira vez em três meses.
Nos Estados Unidos, os economistas ainda esperam que o próximo movimento do Fed seja um corte, embora os mercados financeiros apostem em custos de financiamento mais elevados. Uma alta está integralmente precificada até setembro.
Nenhum dos bancos centrais que se reúnem na próxima semana voltará a se reunir antes da segunda metade do mês seguinte, o que significa que suas mensagens poderão definir o tom dos mercados por várias semanas.
“Embora o BCE tenha decidido manter os juros inalterados por enquanto, a pressão por novas altas no outono certamente aumentou”, afirmou Emanuel Moench, professor da Frankfurt School of Finance e ex-integrante do Bundesbank.
“O Fed provavelmente também manterá a posição na próxima semana, mas a justificativa para cortes de juros no outono praticamente desapareceu.”
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