Bloomberg — A dinastia brasileira do aço tem intensificado esforços para conter o avanço da China na América Latina, em um exemplo de como a potência asiática pressiona concorrentes em todo o mundo.
A frente mais recente dessa disputa é o Peru, onde a Gerdau (GGBR4) detém cerca de um terço da capacidade de produção de aço. A companhia pede ao novo governo conservador peruano que impeça uma concorrente chinesa de construir uma siderúrgica, alegando que o projeto não possui as licenças necessárias e criaria condições para concorrência desleal ao utilizar matéria-prima importada da China a preços inferiores aos custos de produção.
A empresa chinesa Acero Lima Shenglong informou às autoridades peruanas que pretende construir uma usina com capacidade para produzir 700 mil toneladas de aço por ano, volume equivalente à capacidade local da Gerdau, mas ainda não solicitou as autorizações exigidas.
Autoridades confirmaram que há obras em andamento no terreno da Shenglong, ao sul da capital Lima, mas decidiram não abrir um processo de fiscalização após não conseguirem determinar se os trabalhos correspondem à construção da siderúrgica planejada.
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A Shenglong afirmou, em e-mail à Bloomberg News, que “no momento” não está construindo nada no Peru e recusou comentar o assunto.
O confronto coloca a Gerdau — maior fabricante de aço da América Latina, com usinas no Brasil, Peru, Argentina, Uruguai, México e EUA — diante da China, maior produtora e exportadora de aço do mundo.
O caso também representa um dos primeiros desafios para o governo da presidente Keiko Fujimori, que tem buscado estreitar relações com Washington e acaba de nomear como chanceler um diplomata que trabalhou por 15 anos na embaixada dos EUA em Lima. Ainda assim, será difícil ignorar a influência da China, principal parceiro comercial do Peru.
Na tentativa de pressionar as autoridades peruanas a interromper o projeto da Shenglong, a Gerdau colocou em espera investimentos planejados de US$ 45 milhões.
“O que pedimos é a interrupção imediata desse projeto”, afirmou em entrevista à Bloomberg News Aldo Tapia, responsável pelas operações da Gerdau no Peru. Segundo ele, os investimentos locais da companhia estão “em compasso de espera” porque a empresa está “muito preocupada com o futuro do ambiente jurídico e regulatório peruano”.
A Gerdau Brasil recusou comentar a reportagem ou disponibilizar seu presidente do conselho para entrevista.
Gerdau
Clã influente
A Gerdau é controlada pela bilionária família Gerdau, um clã com forte influência política no Brasil. A fortuna da família está altamente concentrada na companhia, e o valor de sua participação caiu desde que as exportações chinesas de aço dispararam no início dos anos 2000, embora as ações ordinárias da holding tenham avançado neste ano.
No mercado brasileiro, a Gerdau, sediada em Porto Alegre e São Paulo, atuou com sucesso para defender a adoção de tarifas sobre o aço chinês. Ao mesmo tempo, enfrentou os efeitos das tarifas dos EUA sobre importações de aço, abandonando planos de investimento no México que dependiam de exportações para o mercado americano.
Tapia afirma que o caso peruano é diferente porque a construção de uma usina vai além da prática tradicional da China de exportar o metal utilizado na construção civil. Se a fábrica planejada utilizar matéria-prima mais barata proveniente da China, poderá acabar violando regras de comércio justo.
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“O problema é que a China adota práticas comerciais desleais por meio de preços de dumping”, disse Tapia, acrescentando que Pequim subsidia os custos de produtos destinados à exportação, que chegam ao mercado “em um patamar com o qual não conseguimos competir”.
Embora o Peru não tenha imposto tarifas sobre o aço chinês, seu órgão de defesa da concorrência, o Indecopi, concluiu em julho que alguns produtos siderúrgicos chineses foram vendidos a “preços artificialmente baixos”, prejudicando a indústria local.
Como muitos países latino-americanos, o Peru historicamente manteve boas relações tanto com Washington quanto com Pequim. O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, aumentou a pressão sobre aliados da região para que escolham um dos lados.
A China exerce papel de destaque na economia peruana, não apenas por comprar a maior parte do cobre produzido pelo país. Em 2024, o presidente chinês Xi Jinping inaugurou o porto de Chancay, de US$ 1,3 bilhão, um dos maiores da América do Sul.
Dúvidas sobre licenciamento
A agência peruana de licenciamento ambiental, Senace, afirmou em comunicado à Bloomberg News que a Shenglong apresentou documentação preliminar indicando a intenção de construir uma siderúrgica em Chilca, cerca de 80 quilômetros ao sul de Lima.
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Segundo a Senace, a empresa ainda não apresentou o estudo de impacto ambiental, cuja aprovação é obrigatória antes do início de qualquer obra. Inspetores visitaram o terreno da Shenglong em março e verificaram que “obras de grande porte” estavam sendo realizadas exatamente na área destinada à futura siderúrgica, segundo relatório da agência.
A ampla presença da Gerdau na América Latina a expõe à concorrência chinesa em diversas frentes, mais do que outras grandes siderúrgicas da região, como CSN e Usiminas, que concentram suas operações no Brasil.
A China produz mais aço do que seus nove concorrentes mais próximos juntos, segundo a World Steel Association. A produção global supera amplamente a demanda, e a China exporta grande parte do aço que não consome internamente.
“Há uma capacidade excedente promovida pela China para ampliar as exportações e conquistar mercados e cadeias globais de suprimento”, afirmou Ezequiel Tavernelli, diretor executivo da Alacero, entidade que representa siderúrgicas latino-americanas, incluindo a Gerdau.
As exportações chinesas de aço para a América Latina quase quadruplicaram nos últimos 15 anos, segundo dados da Alacero.
Pequim reconheceu o excesso de capacidade e prometeu reduzir a produção de aço, com resultados mistos.
O presidente do conselho da Gerdau, André Gerdau Johannpeter, tataraneto do fundador da empresa, afirmou no ano passado que a indústria siderúrgica brasileira já chegou “ao limite” por causa da concorrência chinesa. O Brasil é o maior consumidor de aço da região e o principal mercado da Gerdau.
Cavalos e aço
A Gerdau foi fundada em 1901 por João Gerdau, imigrante alemão radicado no Sul do Brasil. A companhia expandiu-se rapidamente no fim do século 20 sob o comando do então diretor-presidente Jorge Gerdau, que liderou a internacionalização da empresa até o início dos anos 2000, incluindo a compra da Siderúrgica del Peru, então controlada pelo Estado.
Embora a família Gerdau detenha apenas 10% da siderúrgica, segundo cálculos da Bloomberg, a empresa possui uma estrutura de duas classes de ações que permite ao grupo manter o controle.
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Jorge Gerdau é apaixonado por cavalos há décadas, e seu filho André conquistou duas medalhas olímpicas de bronze pelo Brasil no hipismo, na modalidade salto.
Em 2006, Jorge Gerdau assumiu a presidência do conselho, e a empresa nomeou André como diretor-presidente. Em 2011, Jorge também se tornou um conselheiro próximo da então presidente Dilma Rousseff e consolidou a reputação de empresário com grande habilidade política. Naquele momento, o aço chinês começava a surgir como um desafio para as siderúrgicas latino-americanas.
Em 2004, a Gerdau afirmou que a demanda chinesa havia ajudado a empresa a alcançar “lucros recordes”. A companhia chegou a estudar a instalação de uma usina própria na China para atender ao mercado em expansão. O projeto nunca saiu do papel e, em 2014, André Gerdau alertava que as exportações de aço chinês para Brasil, Argentina e México haviam mais que dobrado. “São números impressionantes”, afirmou na época.
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